Mufa Caos

Barrão

Datas: 28/09 – 25/11/2018

Artista: Barrão

Curadoria: Luiza Mello

Local: Jacaranda – Galeria Aymoré

Exposição

Barrão - Mufa Caos

Mufa Caos é uma mostra panorama de trabalhos produzidos por Barrão nos últimos três anos. Esculturas multicoloridas em louça; peças monocromáticas em resina; uma série de aquarelas; e objetos escultóricos foram reunidos pela primeira vez para mostrar a complexidade e as sutilezas de sua prática artística iniciada nos anos 1980. Mufa Caos é pensamento caótico e organização, técnica e improviso, é ironia e seriedade, cérebro e coração, é você e eu no fantástico universo de Barrão.

 

Não existe lógica hierárquica ou cronológica na construção dos trabalhos aqui presentes. Nem em relação aos elementos que os compõem: uma cerâmica barata adquirida em vendedor ambulante não se destaca menos que uma peça comprada em um antiquário; um sábio não parece mais iluminado do que um pedaço de papelão; o vidro não é mais valioso que a resina. Nem mesmo se distingue o momento em que cada trabalho de uma determinada série foi produzido.

 

Em seu ateliê, a hierarquia também se dissolve no tempo da  simultaneidade: enquanto espera secar as peças em louça que têm construção mais lenta, o artista trabalha nas aquarelas. Durante a preparação do molde de uma peça em resina, investiga os materiais que podem formar uma nova escultura. São exercícios experimentais constantes que seguem um método, ao mesmo tempo rigoroso e subversivo. Em um aparente paradoxo, a arte de Barrão se constrói ao estilo mufa caos. Vale lembrar que um dos sentidos da palavra “mufa” é cabeça, como lugar do intelecto.  

 

Os procedimentos reverberam em cada uma das séries aqui apresentadas.

 

As esculturas em louça são colagens de fragmentos de objetos selecionados e organizados cuidadosamente  no ateliê por cor, tamanho, tipologia, função. Elementos decorativos como cachorros e sapos se juntam a objetos funcionais como jarros e xícaras em surpreendentes combinações. Às vezes é possível planejar ou vislumbrar o resultado final de uma peça, mas é no fazer que elas vão tomando forma. É o estado intuitivo, que reconhece os objetos pela experiência sensível e é capaz de captar sua fluidez poética, o elemento fundamental para subverter aquilo que é metódico em sua organização. E, assim, tudo parece equilibrado, frágil e instável ao mesmo tempo.

 

Na série seguinte, a monocromia do branco impera. Partindo do gesso, Barrão utiliza moldes em resina, material que propiciou o desenvolvimento de novas operações escultóricas relacionadas ao espaço, ao volume e à escala. Foi possível seriar os objetos e utilizá-los mais de uma vez nas composições. Os fragmentos deram lugar a peças inteiras que são combinadas, agrupadas e empilhadas em estruturas insólitas que, muitas vezes, parecem estar na iminência de desmoronar.

 

As aquarelas, por sua vez, sempre estiveram presentes em sua produção. Algumas parecem anotações e projetos para esculturas, outras são desenhos independentes, livres de qualquer planejamento. Ligados é uma série de catorze aquarelas realizadas com carimbos de animais e tinta azul. Nelas, os animais são unidos por linhas que passam pela boca, pelos pés e por outras partes de seus corpos, nos dando a impressão de estarem se comunicando e se conectando através dessas linhas de cor, assim como a resina epóxi une os fragmentos nas esculturas em louça. Entretanto essa comunicação é perturbada por zonas caóticas de tinta que os fundem e os transformam em outra imagem.

 

Como um taxonomista dos objetos, Barrão organiza seu ateliê como um grande gabinete de curiosidades, onde uma gama de objetos, moldes e ferramentas convive harmoniosamente, cada um em seu devido lugar. É curioso, dessa maneira, que, no impulso oposto, ele se sinta atraído por reunir esses materiais de maneira livre, quase como anotações, indicações breves do pensamento. Os objetos escultóricos expostos aqui em uma grande prateleira são experiências que o artista faz juntando elementos distintos sem a intenção que eles sejam uma obra acabada; mesmo que em alguns casos o sejam. Os títulos nascem junto com os trabalhos, complementam e multiplicam seu sentido. Em Metal Guru um sábio chinês com um cano cromado no lugar da cabeça está pousado em uma taça de vidro, levitando. Metal Guru é também o nome de uma música do roqueiro britânico Marc Bolan e sua banda T.Rex. A música é mais um elemento fundamental nas múltiplas camadas que compõem os trabalhos do artista.

 

Barrão é um poeta visual que reúne objetos, materiais e formas despojando-os de suas funções e significados originais para gerar novas imagens imprevistas. Cria um universo próprio que reflete de maneira irônica o mundo em que vivemos. Seu trabalho nos faz pensar em nós mesmos, seres fragmentados em um mundo repleto de referências. Nos reconhecemos nas pequenas memórias que esses objetos representam e, ao mesmo tempo, nos surpreendemos com a forma inusitada como eles são apresentados. Mufa Caos é confusão e desvio, nos revela que o todo é maior do que a soma das partes.

 

Luiza Mello
Setembro 2018