Memória Seletiva

Carla Chaim, Celina Portella, Marcelo Amorim, Marlene Stamm e Nino Cais

Datas: 16/03 – 11/05/2019

Artistas: Carla Chaim, Celina Portella, Marcelo Amorim, Marlene Stamm e Nino Cais

Curadoria: Isabel Sanson Portella

Local: Galeria Aymoré (Clarabóia)

Exposição

Memória Seletiva

Somos nossas lembranças, somos esse
museu quimérico de formas inconstantes,
essa pilha de espelhos quebrados.

– Jorge Luis Borges

Somos nossas lembranças, somos tudo aquilo que de alguma forma significou, imprimindo marcas. Porém nosso cérebro tende a rejeitar o supérfluo ficando apenas com o que a memória selecionou. Diariamente descartamos atitudes, crenças e opiniões que nos agridem. Acolhemos imagens e pensamentos compatíveis, assim formando uma identidade que irá se expressar das mais diversas formas. “Se nos lembrássemos de tudo estaríamos tão doentes quanto se não nos lembrássemos de nada”, afirma o escritor Jorge Luis Borges.

MEMÓRIA SELETIVA é a reunião de trabalhos de cinco artistas que, com diferentes poéticas e faturas, permitem que suas lembranças aflorem em obras que certamente falam de suas identidades. Carla Chaim, Celina Portella, Marcelo Amorim, Marlene Stamm e Nino pensaram temas e levantaram questões que procuram resignificar memórias no tempo presente.

Carla, com o vídeo Presença e a obra Gruta (bastão a óleo sobre papel japonês), provoca nossa capacidade imaginativa diante da monocromia. A partir do preto que imprime ora linha, ora massa as obras despertam a inquietação, o estranhamento subliminar que habita o inconsciente. Memórias de medo e luto, mas também de renascimento e iniciação acompanham a idéia da gruta ou caverna mítica. Para Platão a caverna é o mundo, um lugar de ignorância, sofrimento e punição, aonde chega uma única luz indireta indicando o caminho a seguir. A obra de Carla nos fala de limites e espaços que o corpo ocupa, de posicionamentos, deixando, entretanto o espectador livre para avaliar sua relação com essas questões. Tanto a luz e o branco intensos de Presença quanto a escuridão densa de Gruta despertam memórias de dinâmica e desejos do ser humano.

Celina, com Maciço 1 e Maciço 3 e trabalhos da série Oco, traz o movimento e a imagem que ultrapassam limites, a integração perfeita de formas geométricas e corpo humano. Se as formas são negras e densas, o corpo é flexível e envolvente, flutuando numa dança harmoniosa. O peso das massas, real em sua materialidade, dialoga com o ilusório, com a ficção. Tudo na obra de Celina fala de vigor e resistência, sem, entretanto perder a delicadeza sutil. O movimento corpóreo, que sugere coreografias elaboradas, exercita a leveza e a possibilidade de flutuação, explorando os limites ente o real e fictício. E é justamente essa relação que permeia a obra da artista. A pesquisa de situações reais gerando o ilusório. A fotografia, a tinta, as paredes, o enquadramento, tudo completando a narrativa em perfeita harmonia.

Marcelo levanta questões sobre a evolução do papel do livro didático e dos educadores ao longo do tempo. A partir de publicações das décadas de 20 a 50, utilizadas nos processos de alfabetização em escolas brasileiras, o artista revisita imagens e dialoga com as funções sociais da escola, sua importância para a manutenção de padrões sociais e comportamentais. Os ensinamentos e visões de mundo presentes nesses compêndios marcaram a formação de uma geração que aprendeu normas, estruturas e relações com textos e imagens apresentados como verdades absolutas. A partir do material encontrado em suas pesquisas, Marcelo faz um convite para refletirmos sobre a importância de questionar verdades e relações de poder no mundo, de dialogarmos com a possibilidade de uma outra educação mais abrangente. Em seus trabalhos – desenhos e frases escritas a giz em placas de lousa – percebemos a força das imagens e o poder do livro didático na formação do aluno e na função social da Escola.

Marlene apresenta Uma hora de luz, série contendo 102 aquarelas sobre papel, Empilhamento, escultura em gesso, e A caixa, desenho em grafite.  Os desenhos e aquarelas de Marlene evidenciam um trabalho onde o domínio da técnica está aliado à minúcia do método. Em Uma hora de luz a artista captura, registra e reúne em 102 aquarelas o tempo de duração da chama de um fósforo e o que dele restou. Não fosse a delicadeza do traço, a sensibilidade precisa do registro, a repetição poderia se tornar exaustiva. Marlene, porém, transforma um fósforo queimado, que pode ser descartado sem mais reflexões, em algo extremamente prazeroso de se observar, um gancho para questionarmos o efêmero, a (in)utilidade, a beleza no cotidiano. E para pensarmos o tempo e sua duração, aquilo que importa e o que resta quando a razão maior não mais existe. Se quisermos entender a obra de Marlene é preciso primeiro acalmar os sentidos, silenciar vozes que insistem em procurar razões e deixar que a memória traga as lembranças mais doces.

Nino trabalha com a idéia do inusitado, do surpreendente, dos opostos que se harmonizam. Quando se apropria de imagens de livros e filmes antigos, carimbando palavras sobre elas, busca o suspense, o intrigante efeito que despertará a atenção do espectador. Ampliar significados já contidos, sem intenção de resignificar, é a proposta do artista que procura um novo olhar sobre o cotidiano, transformando o real, criando novos conceitos e trazendo à tona o escondido, o camuflado. Um rolo de abrir massa, objeto projetado para uma determinada função, remete ao feminino, ao trabalho doméstico. Mas quando Nino usa esse rolo para esmagar uma peça de roupa masculina, prensando e enrolando a camisa preta, uma nova proposta surge para dois objetos aparentemente impossíveis de se conectar, mas que se encaixam de forma harmônica. O olhar habituado ao previsível terá que reparar mais, perceber mais detalhes e sutilezas, pois é nesse espaço que Nino propõe seus trabalhos.

Os cinco artistas dialogam com suas memórias, com lembranças e poéticas diversas, mas têm em comum a busca pelo sentimento de luta, pela capacidade de criar práticas de pluralidade, pela defesa de idéias coerentes e engajadas.

 

Isabel Sanson Portella
Março 2019