GRID

Amalia Giacominii, Ana Holck, André Komatsu, Brígida Baltar, Carlos Vergara, Daniel Senise, Fabio Cardoso, Geraldo de Barros, Jose Bechara, Lucia Koch, Luiz Zerbini, Nicolás Robbio, Paulo Climachauska,Rafael Alonso e Raul Mourão.

GRID

Artistas: Amalia Giacominii, Ana Holck, André Komatsu, Brígida Baltar, Carlos Vergara, Daniel Senise, Fabio Cardoso, Geraldo de Barros, Jose Bechara, Lucia Koch, Luiz Zerbini, Nicolás Robbio, Paulo Climachauska,Rafael Alonso e Raul Mourão.

Curadoria: Felipe Scovino

Datas: 9 de setembro – 24 de setembro 2017

Local: Jacarandá

Exposição

GRID

O grid no pós-guerra criou uma ideia ou convicção de que as obras podiam expandir os espaços infinitamente, o que significou o primeiro passo para a neutralização do valor de qualquer espaço específico. O que reúne as obras nessa exposição, para além do traçado em grade, é a ideia de uma paisagem. Uma paisagem inventada ou a aparição de um lugar, que de alguma forma, através de uma construção abstrata e econômica de elementos, deixa claro que a paisagem não tem mais ligação com um objeto do mundo natural, mas com a investigação a respeito das próprias circunstâncias que são mobilizadoras dessa transformação da paisagem. Para o crítico Dan Cameron, “o grid lentamente se desenvolveu de um dispositivo usado para ajudar a criar uma ilusão espacial para um sistema que se impôs sobre o espaço propriamente dito”. O grid declarou a modernidade da arte ao ajudá-la a conquistar sua autonomia e “em parte” a dar as costas à natureza.

Nessa mostra nos deparamos com situações distintas a respeito da aparição do grid como propositor de paisagem. Por exemplo, o de um diálogo incessante entre arte e arquitetura, ou a própria formação projetual de um território/espaço, como é o caso das obras de Lucia Koch e Raul Mourão. Por meio de gestos mínimos, os artistas possibilitam que o vazio ganhe forma e se estabeleça como visibilidade e território. Mourão traz a crueza, a sujeira e a atmosfera viva e árida das ruas, enquanto Koch dialoga com as tradições mouras e o legado que o muxarabi trouxe para a contemporaneidade. Suas estruturas vazadas operam como um corpo translúcido, ou um grid que se coloca como que aberto ou flutuante às interações e paisagens que o cruzam. Cabe ressaltar também que a crueza do trabalho de Raul se alinha ao grid projetado sobre a parede de Komatsu. Pairando sobre essa trilha tosca, torta, inacabada há o vergalhão, o traço, o componente que revela um canteiro de obras. A obra se faz nesse processo de nunca se colocar como completa, fechada, pronta. Há uma força própria da cidade que traz dinâmica para essa obra. O grid rascunhado na parede revela o seu caráter projetual e arquitetônico, duas circunstâncias caras a Komatsu. De modo inverso, os backlights de Ana Holck trazem uma memória afetiva à artista. Revelam um canteiro de obras de outra ordem e consequência. As linhas que constroem o grid se entrelaçam com uma imagem que pertence a sua própria história. O grid é uma referência a tudo aquilo que remonta à construção, arquitetura, geometria. São aspectos que são amplamente investigados pela artista.

Já Amalia Giacomini, ao delimitar áreas partindo de um gesto de sobrepor linhas, cria uma relação de figura e fundo, e no limite entre linha e materialidade, o grid é exposto em um intervalo ambíguo que manifesta aparência e dissolução. É como se a falta ou vazio fossem camadas ou linhas orgânicas que completassem o próprio método de execução da obra. Pelo viés da delicadeza, temos as obras feitas com pó de tijolo de Brígida Baltar. Eis o muro em formato de uma trama e o cobogó. A força deles está na própria fragilidade do material, em um estado que oscila perfeitamente equilíbrio e ordem, de um lado, e instabilidade e organicidade, por outro. São arquiteturas que exploram a memória e a afetividade de um espaço da cidade. Numa foto pertencente à série Fotoformas (c. 1951), Geraldo de Barros articula diversas visadas e perspectivas do teto da Estação da Luz, em São Paulo, construindo uma montagem autoral e óptica. Nesse emaranhado de estruturas metálicas e vidro que a foto revela, o grid se faz presente como uma estrutura ilusória, capaz de provocar uma geração de novas e sucessivas dinâmicas.

Os grids sujos, erráticos, desvios de uma pintura op mal feita e rasgada estão presentes nos trabalhos de Rafael Alonso. Umgrid torto e que ri de sua própria condição vacilante. Em Fabio Cardoso, suas telas colocam em evidência e logo em desconstrução duas categorias longevas da arte: o próprio grid e o monocromo. A transparência com que constrói a luz em suas pinturas coloca em dúvida a “pureza” dessas categorias citadas. Não é uma pintura opaca, pelo contrário, pois quer ser desnudada, revelar as suas distintas camadas e nesse instante o grid entra como elemento propositor. Já o trabalho de Zerbini explora, à primeira vista, o rigor de formas e linhas, herança da tradição construtiva na arte brasileira, porém somos levados por uma narrativa nada formalista que incentiva os jogos ópticos, explora as sutis tonalidades de sombras e altera o formato “perfeito” do grid: o que o interessa é uma indisciplina desse plano. O grid se faz também enquanto desenho projetado na parede. No trabalho de Nicolás Robbio, o desenho ganha o espaço e a virtualidade ao mesmo tempo. Pertence a um espaço-entre e se faz enquanto uma paisagem recortada que remetem ao grid, mas especialmente a janela ou brise-soleil. É a imanência de uma arquitetura que caminha por diferentes tempos, referências e propósitos.

Nas cartas/pinturas de Climachauska os números e naipes estão suspensos e o que nos resta é o fundo em grid. O que antes estava literalmente em segundo plano, agora se coloca como protagonista. A dinâmica desses grids remonta ao construtivismo e à arte concreta. Contudo, essa maneira de apresentá-lo induz mais a uma dispersão ótica do que a rigidez das linhas concretas. Se por um lado, o artista subtrai imagens do referente dessa obra (o baralho), por outro ele cria um imaginário sem tamanho para o espectador/jogador.

Constituir uma paisagem não como reprodução mimética da natureza, mas com a natureza ou com a ação do tempo. Esses parecem ser os fios condutores das obras de Carlos Vergara e José Bechara. Como um processo que remonta às monotipias, as obras, através da “impressão” da natureza, no caso de Vergara, e da ação lenta e ácida da química própria dos materiais empregados, no caso de Bechara, nos oferecem territórios. Ademais, o fato delas estarem próximas as de Daniel Senise, que claramente faz menção a dois artistas – Picasso e Cézanne – que tiveram a natureza como meio de investigação, e a de um desenho da série Máscaras, de Vergara, condicionam uma aura romântica: todas essas obras investem sobre um fragmento, um pedaço de paisagem no qual pode estar o todo, e que esse não pode ser desqualificado por uma racionalidade inibidora, mas capturado pelo instante de produção da obra. Já na tela de Vergara com motivos em losângos, de 1983, o referente são as grades que separavam o público do desfile durante os festejos do Carnaval. Saem os aspectos figurativos e o que permanece é o grid enquanto sugestão de um espaço que promove encontros e a compleição de uma atmosfera lúdica.

No terreno da arte, como afirma Anne Cauquelin “o artificial e o real, o inventado e o concreto, a verdade e a mentira, o original e a cópia não se dividem mais segundo uma dicotomia serena, mas mantêm relações fluidas”, abrindo caminho a um pensamento do verossímil. As obras dessa exposição nos revelam que a realidade não é mais exatamente a mesma: ela é duplicada, confrontada, e reforçada pela ficção.