Farra dos Guardanapos

Gabriel Giucci

Datas: 01/09 – 07/10/2018

Artistas: Gabriel Giucci

Curadoria: Gabriela Davies

Local: Galeria Aymoré – Claraboia

Exposição

Gabriel Giucci - A Farra dos Guardanapos

O evento aconteceu em 2009 e se tornou de conhecimento público através da publicação das fotos em 2012. Aqueles que não se lembraram do apelido dado àquela “festa parisiense” se lembrarão das imagens e dos relatos feitos pela mídia. Afinal, tomou a imprensa de forma tão voraz que nem os menos informados deixaram de saber. Três imagens clicadas naquele dia se tornaram a base de um trabalho compulsivo de Gabriel Giucci, que resultou em mais de cem obras produzidas.

Os sorrisos embriagados, estampados nas fotos tão conhecidas, foram replicados em pequenos formatos através da tinta a óleo, fazendo recortes individuais de cada personalidade. A obsessão do artista perante as imagens foi imensa; multiplicou incansavelmente os retratos dos envolvidos.

São muitos de cada um; eles se misturam pela falta de linearidade da montagem e das imagens que se deslocam de forma nada racional, como numa verdadeira farra. As identidades dessas personagens, de início tão marcantes, vão, aos poucos, se perdendo na ebriedade da composição. Já não reconhecemos mais quem é quem; todos se tornam parecidos num estado que transmite tanto o êxtase quanto a falta de retórica.

As pinturas enquadram especificamente as expressões faciais que, em alguns casos, incorporam o guardanapo como parte da fisionomia. As caricaturas de sorrisos – com olhos esbugalhados ou comprimidos de tanto rir – se assemelham às dos pequenos pictogramas que hoje encontramos nas nossas conversas virtuais cotidianas: os “emojis” e “emoticons”. Cada um emblematiza uma expressão, um sentimento, que mistura joie de vivre com opulência, ostentação e deboche.

Se tivéssemos que demarcar os momentos mais ostensivos da história recente de nosso país, sem dúvida a Farra dos Guardanapos entraria na lista. Dos melhores vinhos europeus aos sapatos de sola vermelha, até os ternos feitos sob medida – itens com valores exorbitantes – a farra produziu uma das festas mais luxuosas já vistas. Os convidados beberam, dançaram e comemoraram noite adentro. Não se preocuparam com os momentos festivos registrados através “daquelas” câmeras dos celulares. Estas imagens foram, eventualmente, publicadas em sites políticos e todos os principais noticiários do Brasil.

Giucci descreve todos esses excessos, êxtase e exagero, através do seu tratamento da imagem. Não deixa, também, de proporcionar momentos de maior contemplação nas composições mais alinhadas, onde um véu de tintas negra e vermelha ocultam ou amenizam a felicidade dos rostos. Seu debate não está no julgamento do que foi o comportamento errôneo entre os participantes em suas vidas políticas – afinal, todos nós já criamos nossos próprios vereditos.

Sua preocupação maior está no acontecimento como marco histórico: o auge de um governo, que a partir desse dia entrou em um grande declínio. Se desmoronou. A obra de Giucci é uma celebração irônica sobre ruínas – um momento grandioso celebrado após a queda e degradação deste. A ironia reside na eventualidade desses nomes de tornarem irrelevantes e depravados: os sorrisos que deixaram de fazer sentido por motivos que hoje conhecemos.