Em Profundidade (Campos-Minados)

Alice Miceli

Datas: 18/05 – 14/07/2019

Artista: Alice Miceli

Curadoria: Luiz Camillo Osorio

Local: Galeria Aymoré

Exposição Instituto PIPA

Em Profundidade (Campos-Minados)

Imagens do que não se mostra: o sublime subterrâneo

A série Em Profundidade (Campos-Minados) de Alice Miceli, um projeto que foi sendo realizado ao longo dos últimos anos, explicita um aspecto fundamental de sua poética: a combinação entre política, imagem e experimentação fotográfica. Ela vai explorar territórios que passaram por conflitos sangrentos e que seguem matando mesmo depois de declarada a paz. As minas subterrâneas continuam explodindo ali. Organizações internacionais trabalham na direção de desarmá-las. Como chegar lá, como explicar a relevância do seu projeto artístico e como trabalhar a imagem para que não seja mera ilustração de uma causa ou questão. Sabendo do andamento deste projeto, o Instituto PIPA comissionou em 2018 a última etapa da série em Angola e adquiriu as que restavam para tê-la completa em sua coleção.

Não há drama nas imagens, são paisagens banais e intrigantes. Se passar rápido não vai ver nada. Aí sempre mora o perigo. Essa série dos Campos Minados desdobra uma interrogação que já era muito cara ao seu projeto anterior sobre Chernobyl – encontrar alguma visibilidade para o que nos ameaça concretamente e não é perceptível pelo olho (nem pela câmera). Como transformar em imagem essa invisibilidade? Ir atrás desta imagem velada implica saber que há um deslocamento constante entre o que vemos e o que sabemos, que nem tudo que sabemos pode ser visualizável e que imaginar e procurar dar imagem àquilo que se esconde é uma tarefa da experimentação em arte.

Há toda uma pesquisa e uma vivência nestes campos minados que perpassam o ato fotográfico. Vários estudos são feitos no processo. Achamos importante trazer para as vitrines estas etapas preliminares, revelando sem qualquer didatismo, sem querer dar a chave de um enigma, o cotidiano do seu trabalho artístico. As imagens são de uma paisagem corriqueira, há marcações e um certo suspense. Tudo está prestes a acontecer, para o bem e para o mal. O estranho e o familiar estão diante do nosso olhar.

Esta série me parece ser sobre isso – sobre a memória velada da guerra, sobre a obstinação com o território instransponível, sobre o temor de se movimentar que fica como resíduo (concreto e inconsciente) de uma guerra acabada, mas que não termina nunca. Mais que tudo, o que sobressai nestes campos minados é um caminhar onde há riscos, que transforma a hesitação da fotógrafa em ação, na hesitação intrínseca do olhar do espectador, que vê uma imagem sempre igual e sempre diferente, ao mesmo tempo recuando e se aproximando. Percorrer estas quatro séries é conhecer um pouco mais a história geopolítica do mundo contemporâneo, perceber as margens dos conflitos, seus resíduos perigosos e subterrâneos, os embates da arte, da imagem artística, em mostrar, deslocar, participar, transformar, recuar, esvaziar sentidos dados, frustrar-se por poder pouco, encantar por querer tanto, deixar ver o que é (e não vemos).

Luiz Camillo Osorio

Maio de 2019.