A Fio, À Cor

Christian Henkel, Goia Mujalli, Isabelle Borges e Marcia Thompson

Datas: 08/12 – 03/02/2019

Artistas: Christian Henkel, Goia Mujalli, Isabelle Borges e Marcia Thompson

Curadoria: Gabriela Davies

Local: Galeria Aymoré

Exposição

A Fio, À Cor

A teoria da arte, como conhecemos hoje, se deu pelo longo discurso entre sua objetividade em paralelo à subjetividade. E, deste grande mundo de comparações e debates nasceu a questão da relevância entre as ideias de forma e cor. O debate foi extensamente desenvolvido durante o Renascimento, principalmente entre as escolas de Veneza e Florença. A escola veneziana relevava o uso de cor que marcou trajetórias de artistas como Tintoretto e Veronese. Já na escola fiorentina, o uso da forma foi a base das obras de Leonardo da Vinci e Botticelli. Disegno versus colore foi bases de teses para teóricos como Giorgio Vasari ou Pietro Arentino, discutindo a relevância superior de uma sobre a outra. Enquanto cor ganhou por séculos uma essência primitiva e naturalística (pigmentos vindos de minérios e matérias primas), o desenho – a forma, a linha, o traço – apresentavam o pensamento e desenvolvimento de uma ideia. Enquanto uma era orgânica, a outra era geométrica. Uma apresentava um valor intuitivo – não premeditado – enquanto a outra aprecia a precisão e mediação de ideias. Uma era subjetiva, e a outra era objetiva. Na época de competições e polaridades políticas e artísticas, onde a igreja católica liderava ao lado de Duques e Doges, as ideias seguiam discursos bipartidários.

 

No momento em que o desenho se apresenta como a racionalização e consolidação de uma ideia, ele se promove como o elemento estrutural imperativo e objetivo. A produção da ideia depende deste. Nesta visão sobre o conceito de desenho, a cor se apresenta como algo secundário, e geralmente decorativo – como se não houvesse necessidade de sua existência. Na arquitetura assim como na escultura, a utilização de cor poderia se dar como exagerado e desnecessário; frívolo as vezes. E por este discurso, inúmeros teóricos, por exemplo Charles Blanc, personificaram o desenho através de atributos relacionados à figura masculina (compreendido em sua época): primordial, estruturado, racional. Enquanto isso, a cor se tornou o elemento secundário e complementar do embate.

 

A personificação da cor através de características femininas produziu compreensões degradantes a um patamar de frivolidades e devaneios. Se cor não era necessária, ela estaria ali apenas para embelezar e enfeitar, e poderia por consequência, ofuscar julgamentos sobre a qualidade de um objeto de arte, assim como uma mulher embelezada por sua maquiagem e pedras preciosas.

 

Na realidade, sempre houve um medo, da parte do ocidente, em relação à cor. Descrever uma cor, e compreendê-la é algo tão abstrato que acaba saindo das zonas de confortos de pensamento. Uma forma se faz, cria e copia; se toca, molda e mescla. Cor, não – pelo menos, não na sua totalidade. A ideia de inventar uma cor é impossível, e por mais que Yves Klein tenha criado o YKB, isso é só possível na relação de pigmentos, pois a cor em si já era existente dentro da natureza. E esse discurso todo está se dando sem nem ao menos debater incidências de luz. Cor se tornou tão abstrato e exótico que os europeus começaram a classificar graus diferentes com nomes imaginários, colonizados por seus desejos, como azul Taiti. Seria interessante se esse azul de fato representasse a cor do mar das ilhas, sem que houvessem chuvas ou correntes que alterassem sua transparência e reflexibilidade do céu.

 

O separatismo implementado nessa equação, tentando elevar um sob o outro, acabou se tornando perigoso para aqueles que buscavam entender o escopo geral da arte. A diminuição da cor em relação ao desenho foi feita por conta de estigmas generalizados destes elementos. A grande desafiadora deste embate foi a pintura, que dependeu enormemente de ambos lados para sua composição, principalmente em tempos modernos onde as regras de composição ganharam novos parâmetros. Na verdade, todas obras dependem de ambos, cada obra com um grau diferente, mesmo àquelas do século XV. O grande discurso não pode mais estar em qual elemento é mais relevante para história da arte, nem muito menos entender agora que cor é mais importante que a forma. Forma e cor são inter-relacionados e essenciais um para o outro na arte.

 

A Fio, À Cor é uma exposição que ressalta essa questão bipartidária. As obras aqui apresentadas possuem essa dicotomia, cujo espectro é singular à cada obra. E cada uma destas procura um suporte diferente, seja ele pintura, objeto, instalação, ou algo que não chega ser exatamente um nem outro, mas ganhando um sentido múltiplo. As obras de Christian Henkel, Goia Mujalli, Isabelle Borges e Marcia Thompson mesclam não só as categorias de cor e desenho, mas também as restrições de espaço que tradicionalmente enclausuraram a arte. Essa exposição é um convite para dissertar sobre cada um dos trabalhos em suas naturezas singulares e conjuntas, e também à teoria que embasou todo seu desenvolvimento.

 

Gabriela Davies
Dezembro, 2018